Até onde vai a analgesia do Tramadol?

Você já parou para se perguntar por que tanto se usa Tramadol na medicina veterinária? Atualmente esse medicamento deve ser o analgésico mais difundido na analgesia pós-operatória em animais, após os anti-inflamatórios não esteroides (AINEs). Vários fatores facilitaram a difusão do tramadol, como (a) poucos efeitos indesejáveis quando comparados aos opioides, (b) baixo poder de dependência química, (c) administração também realizada por via oral e (d) facilidade na compra, sem a exigência de receituário veterinário especial.

Na base de dados Pubmed, o primeiro estudo avaliando o tramadol em animais data de 1978. Desde então, centenas de artigos tem sido publicados com foco no estudo dos efeitos deste medicamento em animais. Clinicamente o tramadol é “classificado” como um opioide, mas na verdade, ele não atua apenas nos receptores µ, mas também na inibição de recaptação de serotonina e noradrenalina. Sabe-se que o metabólito O-desmetil-tramadol (M1) é o principal responsável em promover analgesia, com pouca ação pela via opiácea. Deste modo, é fácil entender que, se uma determinada espécie tem dificuldade em gerar o metabólito M1, a analgesia estará comprometida.

Tramadol em cães e gatos

Vários estudos já comprovaram a inabilidade dos cães em gerar o metabólito M1, ao menos em concentrações necessárias para promover analgesia, independente da via. Soma-se a isso estudos recentes, com metodologias mais rigorosas, os quais verificaram que o tramadol não foi eficaz no controle da dor em cães, sendo obviamente menos efetivo que opioides agonistas totais, com a morfina e metadona, parciais, como a buprenorfina e também pior que alguns AINEs.

Já os gatos conseguem produzir M1 em concentrações “ditas” adequadas para promover analgesia. De fato, há mais estudos que comprovam a eficácia analgésica do tramadol em gatos que em cães. Porém, os estudos têm mostrado que o tramadol é eficaz como analgésico apenas em cirurgias consideradas de estímulo leve a moderado, como orquiectomia e OSH. Ainda sim, há estudos que comprovam que alguns AINEs tendem a ser melhores que o tramadol nessas circunstâncias.

Tramadol em grandes animais

Ainda que possamos ver alguns profissionais utilizarem tramadol em equinos, há consenso entre os pesquisadores de que o tramadol é totalmente ineficaz no tratamento da dor aguda nessa espécie. Vários estudos comprovaram ausência desse efeito, seja por administração IV, IM ou oral, em bolus ou infusão contínua, isolado ou em associação. Isso se deve pois o metabólito M1 praticamente não é formado nos cavalos, predominando a formação do N-desmetil-tramadol (M2), o qual é inativo. Mesmo doses elevadas, acima de 5 mg/kg IV, não há produção adequada de M1. Por outro lado, verifica-se que essas doses promovem ataxia, tremores, fasciculações, agitação, micção e defecação. Em ruminantes o tramadol tem rápida biotransformação, com baixa produção de M1, o que aparentemente justifica a ineficácia analgésica do fármaco, mesmo em doses elevadas (4 a 6 mg/kg, IV).

Experiência como paciente

Particularmente já tive a experiência de ser medicado com tramadol. Tempos trás tive um acidente de moto, leve, mas que me deu uma luxação de coluna, gerando dor extremamente intensa (principalmente pra mim, que sou fraco para dor). Ao chegar ao hospital, a médica me receitou dipirona, dexametazona e tramadol. Após duas horas no hospital, imediatamente antes de fazer um exame de tomografia, eu ainda sentia as mesmas dores que quando chegara ao local. Perguntei para a enfermeira quando eu iria receber tramadol (achando que seria meu alívio), pois não estava aguentando de dor. Tal foi minha surpresa quando ela me disse que já havia administrado o medicamento no soro uma hora antes… (!?) Tudo bem… só tive uma experiência de tramadol na vida… mas para nunca mais! Conversando com outros amigos, os mesmos também relataram “nada” com o tramadol frente a dores intensas. Depois disso penso 100 vezes antes de receitar tramadol para um paciente meu…

E você? o que acha?

Esse post está relacionado à videoaula Opioides, da webserie “Anestesia é o Básico”. Assistiu? Então vai lá e veja o vídeo!

Para ler depois:
Bortolami E et al. Pharmacokinetics and antinociceptive effects of tramadol and its metabolite O-desmethyltramadol following intravenous administration in sheep. Vet J. 205:404-9, 2015.
Brondani JT et al. Analgesic efficacy of perioperative use of vedaprofen, tramadol or their combination in cats undergoing ovariohysterectomy. J Fel Med Surg. 11:420-9, 2009.
Budsberg SC et al. Lack of effectiveness of tramadol hydrochloride for the treatment of pain and joint dysfunction in dogs with chronic osteoarthritis. JAVMA. 252:427-32, 2018.
Cagnardi P et al. Pharmacokinetics, intraoperative effect and postoperative analgesia of tramadol in cats. Res Vet Sci. 90(3): 503-9, 2011.
Carregaro AB et al. Physiological and analgesic effects of continuous-rate infusion of morphine, butorphanol, tramadol or methadone in horses with lipopolysaccharide (LPS)-induced carpal synovitis. BMC Vet Res. 10:966, 2014.
Cox S et al. Determination of oral tramadol pharmacokinetics in horses. Res Vet Sci. 89:236-41, 2010.
Dhanjal JK et al. Intravenous tramadol: effects, nociceptive properties, and pharmacokinetics in horses. Vet Anaesth Analg. 36:581-90 2009.
Knych HK et al. Pharmacokinetics and selected pharmacodynamic effects of tramadol following intravenous administration to the horse. Equine Vet J. 45:490-6, 2013.
KuKanich B. Papich MG. Pharmacokinetics of tramadol and the metabolite O-desmethyltramadol in dogs. J Vet Pharmacol Ther. 27:239-46, 2004.
Pypendop BH. Ilkiw JE. Pharmacokinetics of tramadol, and its metabolite O-desmethyl-tramadol, in cats. J Vet Pharmacol Ther. 31:52–9, 2008.
Shilo Y et al. Pharmacokinetics of tramadol in horses after intravenous, intramuscular and oral administration. J Vet Pharmacol Ther. 31(1):60-5 2008.
Steagall PVM et al. Antinociceptive effects of tramadol and acepromazine in cats. J Fel Med Surg. 10:24-31, 2008.
Stewart AJ et al. Pharmacokinetics of tramadol and metabolites O-desmethyltramadol and N-desmethyltramadol in adult horses. Am J Vet Res. 72:967-74, 2011.

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Este post tem 5 comentários

  1. Avatar
    Nadia Crosignani

    Muito bom o post: curtinho e bem clara a explicacao. Nem vou falar o quanto concordo e adicionaria que o ttamadol reflete duas coisas tambem: o quanto os laboratorios influenciam naa ddcisoes dos veterinarios, e que o efeito placebo existe! Parabens Carregaro e equipe Nave por todo o material que estao produzindo. Nadia Crosignani

    1. Avatar

      Oi Nadia, tudo bem?
      Muito obrigado pelo apoio ; )

      E os labs hein?… é muita coisa em jogo… besos!

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    Ewaldo de Mattos Junior

    Boa explanação Adriano. Acho que existem vários fatores relacionados ao uso do tramadol. O básico dentre os profissionais é a falta de conhecimento. Acredito que dentro da vet a influência de Laboratório e pouco relevante, e se for é recente, pois até pouco tempo só havia tramadol de uso enteral para humanos e a quantidade que prescrevemos para animais ou mesmo utilizamos pelas vias parenterais é insignificante para um laboratório que produz para humanos. Dentre os anestesistas, havia poucas informações sobre o uso do fármaco como analgésico no intraoperatorio ou no pos imediato, assim sendo todos utilizam baseado nas pesquisas com humanos. Outra coisa é a sensação de segurança que o tramadol tem, promovendo poucos ou nenhum efeito hemodinâmico, desta forma os profissionais que tem receio acabam optando por ele. O custo sem duvida também é outro fato importante para a utilização, principalmente em animais que são internados por longos períodos, associado ao fato de que nessa situação pode ser utilizados por diversas vias. E por fim, e o único opioide para uso enteral disponível comercialmente para animais, então para tratamento da dor pós-operatória em casa, os profissionais acabam prescrevendo e criou-se o grande hábito.
    Na minha opinião, já tomei tramadol para dor de dente e foi impressionante, tenho um colega que toma frequentemente nas crises por conta de extrusão de disco cervical e segundo ele e uma maravilha. Mas o comportamento farmacocinetico em humanos e bem diferente de animais, principalmente relacionado a produção dos metabolitos ativos.
    Na minha experiência profissional nas diferentes espécies, inclusive em silvestres é bem variada, sendo de boa a ausente, mas fica difícil uma análise pontual pelo fato de sempre ter outro fármaco associado podendo ocorrer sinergismo. Para os meus orientados de pos e residência sempre tenho discutido o que a literatura tem apontado, que não funciona. Mas acho que tem muita coisa pra estudar, pois acompanhei pesquisas da Denise, que os resultados foram positivos!!!

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    Beatriz Monteiro

    Muito bom o post! Concordo principalmente em relação a o q sabemos sobre a diferença da farmacocinética do tramadol e a formação do metabólito O-desmethyl-tramadol em cães e gatos.
    Em dor crônica também não temos evidência suficiente mostrando que tramadol administrado pela via oral tem feitos analgésicos importantes em cães com osteoartrite (OA). Em gatos já temos mais estudos mostrando sua eficácia no manejo da OA. Acredito que tramadol seja sim uma opção a ser considerada no manejo da dor crônica em gatos. Porém, a desvantagem é que deve ser administration 2-3 vezes ao dia e tem gosto muito amargo. Se a cápsula abre uma vez, aquele gato nunca mais vai aceitar o medicamento e não devemos forçar a administração nesse caso. Quem sabe teremos mais medicamentos palatáveis e de fácil administração a longo termo p gatos num futuro próximo além dos AINES!

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    Agradeço a colaboração de cada um de vocês meus amigos! A ideia dos posts é colocar o assunto em discussão, independente da opinião de cada um. Desde que ela seja fundamentada. Isso que faz andarmos pra frente. Abraços!

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