Reconhecimento da dor aguda em gatos

Escrito por: Amanda Pacheco e Yuri Caetano

A inabilidade dos animais em relatar sintomas de dor torna a tarefa diagnóstica um grande desafio. Este fator é sugerido como uma causa importante de subtratamento analgésico em gatos e faz com que a espécie esteja mais propensa a sofrer os malefícios da dor, trazendo consequências sensoriais-discriminativas, afetivas-motivacionais, cognitivas-avaliativas e também fisiológicas.

Como reconhecer dor aguda em gatos?

A dor aguda é resultante de um evento traumático, cirúrgico, patológico ou infeccioso que é iniciada abruptamente e é relativamente breve. Até pouco tempo atrás o reconhecimento da dor era baseado em fatores fisiológicos e comportamentais. Entretanto, alterações fisiológicas como frequência respiratória e cardíaca, dilatação pupilar e testes neuroendócrinos, como mensuração de cortisol, glicose e beta-endorfinas, são pouco correlacionados à dor aguda para a espécie, uma vez que essas são alterações facilmente geradas como resposta ao estresse, medo e ansiedade causados pelo ambiente e manejo hospitalar. 

Atualmente, é consenso na medicina veterinária que o método mais eficaz para o reconhecimento e avaliação da dor em animais não deva ser baseado nos parâmetros fisiológicos, mas sim pelas alterações comportamentais, por meio das expressões faciais (estreitamento dos olhos, testa franzida, cabeça baixa), atividade (atividade reduzida, perda de apetite, prostração, ato de se esconder, vocalizar, lambedura excessiva, agressão – dor intensa normalmente se observa depressão) e disforia (debater-se, inquietação e movimentação contínua podem ser sinais de dor severa). Portanto, a avaliação da dor deve ser um componente da rotina do exame clínico e as escalas de dor devem ser consideradas como um “quarto sinal vital” após temperatura, pulso e respiração.

É possível quantificar dor em gatos?

Vários estudos voltados para o reconhecimento e quantificação da dor em gatos foram publicados nos últimos anos, principalmente na criação de escalas espécie-específicas e de fatores e limitações que afetam esse reconhecimento. Essas escalas conferem praticidade, objetividade e são de fácil aplicabilidade por profissionais de todos os níveis (veterinários, auxiliares, estudantes ou indivíduos em treinamento). As principais escalas para gatos são:

  • Escala multidimensional da UNESP-Botucatu para avaliação da dor em gatos: É validada, confiável e faz referência às dimensões sensoriais-discriminativas e afetivas-motivacionais da dor. É considerada uma escala de alto consumo de tempo, composta por tópicos minuciosamente descritos. O interessante é que são oferecidos vídeos de treinamento online para aplicação da escala.
Escala de Glasgow para avaliação da dor em gatos (Reid et al., 2017).
  • Escala facial para avaliação da dor em gatos: Uma das mais novas escalas, é baseada apenas nas expressões faciais dos gatos. É possível de ser aplicada principalmente por tutores, pois é fácil e didática. É baseada avaliando-se a posição das orelhas, das vibrissas, estreitamento dos olhos, relaxamento ou não de focinho e posicionamento da cabeça com relação ao ombro.
Escala facial da dor em gatos (Evangelista et al., 2020).
  • Escala de Dor Aguda da Universidade do Colorado: Essa escala é estruturada em um questionário composto pela avaliação de comportamentos espontâneos e evocados, assim como interações com o animal e observações clínicas. É uma escala de aplicabilidade fácil e intuitiva.
Escala da Universidade do Colorado para avaliação da dor em gatos.

Ainda existem outras escalas desenvolvidas para uso clínico, como a Escala Visual Analógica, também conhecida como VAS (Visual Analogue Scale), composta por uma linha reta não numerada que geralmente compreende pontuações de “ausência de dor” evoluindo até “dor severa”; a Escala Numérica, que possui o mesmo princípio da anterior, porém com pontuações de 0 a 10 a respeito de diferentes comportamentos e a Escala de dor de Melbourne.

Apesar de abordarem diferentes parâmetros de dor, algumas escalas (como a visual e a numérica) não são específicas para a espécie felina e/ou não conferem valores aceitáveis de validade, confiabilidade e responsividade, portanto seu uso é questionável na rotina clínica, visto que pode induzir à avaliação errônea da dor e, consequentemente, protocolos de tratamento inadequados.

Qual a importância do reconhecimento da dor?

Embora seja de suma importância o reconhecimento e avaliação da dor pelo médico veterinário, é primordial que o tutor também saiba reconhecê-la pois, além de já conhecer o comportamento habitual de seu pet, isso fará com que ele procure atendimento veterinário o mais breve possível.

Além das escalas citadas aqui, também temos guias disponibilizados pela International Veterinary Academy of Pain Management (IVAPM), os quais são práticos e simples, já direcionados aos tutores, para que eles possam reconhecer comportamentos atípicos em seus pets.

Em resumo, ainda que seja um grande desafio identificar dor aguda em gatos, atualmente temos diversas ferramentas que facilitam esta tarefa, tanto para o médico veterinário como para o tutor. Por este motivo, devemos sempre lidar com a sensação da dor nos animais de forma séria e detalhada, de forma que possibilite a indicação de protocolo analgésico individualizado de máxima eficácia para o tratamento da dor!


Pra ler depois:
– Brondani JT et al. Validation of the English version of the UNESP-Botucatu multidimensional composite pain scale for assessing postoperative pain in cats. BMC Vet Res, 9:43, 2013.
– Epstein M et al. AAHA/AAFP pain management guidelines for dogs and cats. Am Ani Hosp Assoc, 51:67-84, 2015. 
– Evangelista MC et al. Clinical applicability of the Feline Grimace Scale: real-time versus image scoring and the influence of sedation and surgery. Peer J, 8:e8967, 2020.
– Evangelista MC et al. Facial expressions of pain in cats: the development and validation of a Feline Grimace Scale. Scientific Reports, 9:19128, 2019.
– Glasgow Feline Composite Measure Pain Scale, 2015.
– Hellyer PW et al. Colorado State University Veterinary Medical Center Feline Acute Pain Scale, Colorado State University, 2006.
– Luna SPL, Brondani JT. UNESP – Botucatu Multidimensional Composite Pain Scale, Animal Pain, 2012.
– Mathews K et al, Guidelines for recognition, assessment and treatment of pain, J Small Ani Pract, 2014, 59p.
– Reid J et al. Definitive Glasgow acute pain scale for cats: validation and intervention level. Vet Rec, 18:449, 2017.
– Ryan S et al. Diretrizes para o Bem-Estar Animal da WSAVA (World Small Animal Veterinary Association), 2018, 86p.
– Steagall PV, Monteiro BP, Acute pain in cats: Recent advances in clinical assessment. J Fel Med Sur, 21:1:25-34, 2019.

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