O quanto sabemos sobre dor em aves?

A garantia do alívio da dor é um dever ético e moral de médicos veterinários para com todas as espécies. Ainda que a dor em aves seja um tema de especial interesse na medicina veterinária nos últimos anos, ela ainda é pouco estudada. Paralelamente, a crescente domesticação de aves expandiu a casuística de procedimentos clinico-cirúrgicos realizados nesses animais, reforçando esse interesse.

Seguindo esta tendência, as pesquisas abordando técnicas analgésicas e anestésicas empregadas nestes animais também têm se tornado mais comuns. Porém, a analgesia ainda é considerada insuficiente em aves, já que o conhecimento necessário para a correta avaliação e o manejo da dor são primitivos em relação ao conhecimento vigente e já consolidado sobre a dor em mamíferos de companhia. Isso tudo pode resultar em imunossupressão, perda de peso, automutilação e prolongada recuperação após traumas ou cirurgias nesses animais.


Você sabe reconhecer a dor aguda em aves?

Um dos principais entraves à analgesia em aves é o reconhecimento da dor. De forma geral, a avaliação da dor em animais pode ser realizada avaliando-se os parâmetros fisiológicos (ex: apetite), parâmetros laboratoriais (ex: níveis séricos de cortisol) e alterações comportamentais.

Enquanto mensurações laboratoriais podem não ser viáveis logistica e financeiramente, os indicadores fisiológicos podem ser influenciados por variáveis que não somente a dor, como o estresse. Este fator limitante é particularmente importante para animais não-domésticos – como muitas espécies de aves o são – já que a proximidade com o homem ou a manutenção de um indivíduo em cativeiro podem engatilhar o estresse.

Nesse caso, o comportamento, ou melhor a alteração deste, tem sido melhor estudado para o reconhecimento da dor em aves. Entretanto, há mais de 10 mil espécies de aves descritas – desde colibris de 5 centímetros a avestruzes de 2 metros de meio – de forma que o comportamento pode oscilar significativamente entre animais pertencentes a grupos filogenéticos distintos.


Pesquisa nacional

A literatura ainda carece de estudos que determinem a forma como a dor é abordada no paciente aviário. Pensando nisso, os pesquisadores André Justo e Silvia Cortopassi, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP, em parceria com o NAVE, desenvolveram uma pesquisa online para obter um panorama nacional do conhecimento e da atitude dos médicos veterinários brasileiros frente à dor aguda em aves. A pesquisa consiste em um questionário que pretende responder a três perguntas principais:

  • Quais são os métodos atualmente utilizados para o reconhecimento da dor em aves?
  • Como médicos veterinários brasileiros manejam a dor aguda em aves?
  • Quais são as áreas prioritárias para futuros estudos?

Esperamos que a obtenção deste cenário nacional para um tema ainda tão negligenciado dentro da medicina veterinária possa contribuir para o bem-estar dos nossos pacientes de penas!

Contamos com sua participação!


Para ler depois:

D’ovidio et al. Nerve stimulator-guided sciatic-femoral nerve block in raptors undergoing surgical treatment of pododermatitis. Vet Anaesth Analg. 42:449–53, 2015.
Kubiak et al. The influence of a combined butorphanol and midazolam premedication on anesthesia in psittacid species. J Avian Med Surg. 30:317–23, 2016.
Lierz M, Korbel R. Anesthesia and analgesia in birds. J Exot Pet Med. 21:44–58, 2012.
Malik A, Valentine A. Pain in birds: a review for veterinary nurses. Vet Nurs J. 33:11–25, 2018.
Rocha RW, Escobar A. Anestesia em aves. Investigação. 14:1-9, 2015.
Weary et al. Identifying and preventing pain in animals. Appl Anim Behav Sci. 100:64–76, 2006.
Wesselmann et al. Analgesia for zoo animal and wildlife practice. In: Goldberg ME, Shaffran N. Pain Management for Veterinary Technicians and Nurses. 263 – 285, 2017.


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